domingo, maio 19, 2019

Universidade sob ataque: a semana sombria da educação brasileira

Universidade sob ataque: a semana sombria da educação brasileira
Prof. Julio F. D. Rezende

Hoje é domingo, 19de maio de 2019. Nos 20 anos que atuo como professor em instituições públicas e privadas, esta semana foi para mim a mais sombria da história da educação brasileira. Não por conta dos cortes, mas devido à construção de um discurso de desvalorização da educação e do professor: instrumentos fundamentais para construir uma sociedade melhor. E o ataque vem assim: uma enxurrada de postagens que são encaminhados nos grupos com reportagens denunciando problemas no funcionamento em algumas universidades. Se existem falhas nas universidades que sejam investigadas pelas instâncias certas e se busque a melhoria.
As postagens foram em resposta ao movimento de paralização que ocorreu em várias cidades brasileiras no dia 15 de maio de 2019, de protesto contra os cortes ou contingenciamento de recursos das instituições de ensino federais. Começaram a ser compartilhados nessa data e nos dias seguintes.
Quem envia as mensagens, pela quantidade, talvez não tenha nem o cuidado da leitura. Muitas de datas antigas selecionadas cuidadosamente para desqualificar a educação superior. O ataque às universidades via Whatsapp parece algo orquestrado. Nos vários grupos, algumas pessoas compartilham exatamente as mesmas reportagens sem nenhuma avaliação crítica ou comentário sobre o conteúdo.
A UFRN foi eleita a terceira melhor instituição de ensino em transparência. Isso é um indicador importante pois expressa que a instituição comunica adequadamente seus resultados e ações; atende a órgãos de fiscalização e tem a sua prestação de contas aprovada. Desse modo, assim como a UFRN existem tantas outras com modelos de governança que merecem confiança e respeito da sociedade.
Defendam educação, pesquisa, ciência, tecnologia, engenharia, música, artes e não o contrário. Procurem saber o que há de positivo em termos de pesquisa. O meu desafio é compartilhar esses resultados positivos das universidades que têm melhorado a condição de vida da sociedade. A UFRN realiza importantes pesquisas em parcerias com empresas e governos, com resultados para saúde, segurança, desenvolvimento econômico, melhoria das condições sociais. 
Em vista do exposto, a motivação deste artigo não é nem questionar os cortes na educação, apesar dos profundos impactos no funcionamento das instituições de ensino do RN, algumas não terminando as atividades previstas para o ano e havendo profunda precarização das operações sem materiais, vigilantes, profissionais de limpeza e condições mínimas de funcionamento, prejudicando milhares de estudantes que têm sonhos, desejam uma profissão e um espaço no mercado.
O que eu questiono, me impressiona e preocupa é uma mensagem construída e replicada institucionalmente de ataque às universidades por grupos organizados. Quem vê e não conhece a universidade tem uma compreensão errada, ajudando a criar preconceitos, antipatia e distanciamento, quando o que deve existir é uma percepção da profunda contribuição e conexão dessas instituições com a resolução de problemas da sociedade.
Agora não tem mais pessoa física e empresário que sonega; político ladrão, policial e membro da justiça corruptos. A mensagem que está sendo replicada hoje é: os únicos culpados dos problemas do país são os professores. Vamos persegui-los! Hoje são os professores a serem queimados. Amanhã serão os livros! Depois queimaremos tudo o que nos fazem humanos. Barbárie!
            Não esqueçam que nas universidades públicas se formam administradores, engenheiros de produção, civil, mecânica; médicos, entre outros tantos importantes profissionais para o desenvolvimento do país. Se você tem dúvida da importância das universidades públicas, faça um exercício de imaginação e oblitere as instituições de ensino público e os milhares e milhões de profissionais que poderiam deixar de serem formados e de atuarem no mercado. Tente imaginar o futuro com médicos e outros profissionais de saúde e diferentes áreas do conhecimento em número insuficiente. Imagine um país incapaz de desenvolver novas vacinas; com limitação de profissionais para lidarem com uma possível epidemia; ou da queda de um prédio mal feito, pois ali não teve um engenheiro civil participando daquela construção. Imagine um país que não consegue alimentar a população, pois não existem profissionais qualificados para desenvolver novas técnicas agrícolas, para debelar novas pragas que surgem. Não estamos falando da Venezuela! Estamos falando do que pode ser o Brasil no futuro. 
O que vem a seguir? Tenham amor e carinho com a universidade e não o contrário. Não compartilhe esse discurso de destruição. Novos valores precisam ser construídos, mas não é desqualificando orquestradamente a universidade e sim construindo um diálogo com base em avaliação e informações confiáveis.





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